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Trabalhar em um shopping é um tanto quanto torturante. Todos os dias, passo em frente a uma loja de lingeries onde sou obrigada a ver a Gisele Bündchen vestindo calcinha e sutiã preto numa pose exuberante. Seu cabelo perfeito combina com o rosto fino e a expressão sensual, o que, me obriga a pensar "Que ódio!".
Passando a loja de lingeries, vem uma loja repleta de vestidos lindos e caros que vestem os corpos perfeitos das manequins magrelas. Em seguida, outra loja feminina. Dessa vez com sapatos e bolsas. Na frente dessa, uma que brilha com as jóias de ouro e prata, cintilando através da vitrine iluminada, onde há também fotos de beldades de corpos perfeitos.
Chego ao meu local de destino e lá permaneço durante horas a fio de puro tédio. Às vezes temos um pouco de emoção quando somos surpreendidos com uma casquinha jogada do piso superior por algum pivete. (Verídico). Há também alguns clientes engraçados que nos rendem boas risadas. Respondo a perguntas, algumas bem bizarras, peço documento e imprimo cupons. Repito sempre as mesmas falas: “Bom dia, já tem cadastro?”, ” Me empresta um documento, por favor",” Qual o seu CEP?". Carimbo as notas fiscais das pessoas que desfilam pelo shopping. Nas sacolas, roupas caras. Na barriga, Mc Donald's, Pizza Hut, Viena, ou qualquer outra tentação da praça de alimentação. Na hora do almoço, me contento com meu lanche de pão integral. Durante o expediente vejo o brilho da faixada vermelha da TAM, o que me faz imaginar os pacotes de viagens vendidos. Como se não bastasse, ainda olho para dois carros 0 km que serão dados de presente a algum sortudo.
Certa hora do dia, a Koppenhagen me mata de desejo com o cheiro de café que abriria o apetite até daquele que não gosta de café. Logo mais, o quiosque da Nutty espalha o cheiro de amendoim doce por todo o nosso balcão e nos mata novamente. Então abro minha bolsa sem zíper e vejo que só tenho dinheiro para o ônibus, e que o troco basta apenas para comprar algumas balas na banca de jornal. Ah.. Se eu tivesse ao menos R$6,40 para comprar um cappuccino na Kopenhagen...
Chegada a esperada hora de ir embora, me despeço com alegria do computador e dos meus queridos companheiros de trabalho. No caminho de volta para casa, a música me acompanha durante todo o percurso. O fone de ouvido me mantém acusticamente isolada do mundo, nenhuma voz me incomoda. O único barulho é o motor do ônibus, difícil de abafar.
Assim que chego em casa, sinto o desprazer de ver meu corpo no espelho. Imediatamente me vêm à cabeça a imagem da Gisele Bündchen de lingerie preta e das outras gostosas da vitrine. Ainda assim, vou correndo para a cozinha, abro a geladeira e não faço questão de resistir à Coca-Cola.









